06 julho 2017

[Entrevista] Padre Domingos Cunha - IESh Instituto Eneagrama Shalom


Me chamo Domingos sou Padre da comunidade Shalom, sou português e moro no país à 33 anos. A nossa comunidade trabalha especificamente com evangelização de jovens, e à cerca de 23 anos trabalho com eneagrama como instrumento de autoconhecimento, de crescimento e transformação pessoal, trabalhamos também com meditação e respiração. É foco do nosso trabalho.

(Bruaca) E como surgiu esse envolvimento com eneagrama?


(Pe. Domingo) Olha, eu cheguei ao Brasil em Fevereiro de 1985, e foi em julho que um amigo que veio da califórnia  passar férias em fortaleza,  me contou essa novidade. Mas a forma que ele nos apresentou o eneagrama foi muito estereotipada, e isso causou resistência e o grupo não se entusiasmou. Só depois que eu fui para Belo Horizonte em 1990, novamente ouvi falar em eneagrama em uma perspectiva diferente, e isso me chamou a atenção. Então fui atrás e estudei o tema e dessa vez me entusiasmei, foi muito importante para mim como autoconhecimento. Comecei a propor e a falar sobre o assunto para pessoas mais próximas. Em 1995 eu voltei a Fortaleza e comecei a organizar o processo do eneagrama, sobre tudo para pessoas próximas, jovens com mais tempo de caminhada e algumas pessoas amigas.


(Bruaca) Quando o senhor se refere a uma " forma estereotipada", o que exatamente quer dizer?


(Pe. Domingos) Quer dizer que esse meu amigo se encarregou de rotular cada um de nós e disse o tipo de cada um, disse que á luz do eneagrama as nossas comunidades estavam mal formadas, porque tipo tal não combina com tipo tal e, para nós, isto era um negócio muito ilusório. E isso criou resistência. Mais tarde quando eu fui compreender o eneagrama percebi que a proposta nada tinha a ver com isso. Que era algo muito mais profundo e muito dinâmico.


(Bruaca) Voltando no tempo, conte-nos como foi o processo de decisão de ser tornar padre, e com isso a decisão de morar no Brasil.


(Pe. Domingos) Eu sou de Viana do Castelo uma cidade do norte de Portugal. Eu já estudava e estava fazendo formação como seminarista em uma diocese no seminário. E depois eu conheci a comunidade Shalom da qual eu faço parte hoje, me identifiquei com este carisma, com o trabalho e com a juventude. Por isso, optei por entrar na comunidade Shalom. Como a casa de formação é aqui em fortaleza eu optei por viver aqui.


(Bruaca) Logo que soube da nossa entrevista pensei em trazer os livros que tenho para o senhor autografar, mas considerei um insulto e trouxe apenas o livro "Eneagrama sua dose diária". E se não estiver enganada esse é seu livro mais recente?

(Pe. Domingos) Não, tem os dois primeiros livros que foram publicados logo que eu comecei a trabalhar e, que na realidade são roteiros das três primeiras etapas que nós fazemos. Tem um livro chamado "Quem é você" que é o roteiro da primeira e segunda etapa. O objetivo é a pessoa identificar seu tipo e descobrir os caminhos de crescimento. Tem o segundo livro, que se intitula "Que imagem de Deus é você" que é o roteiro da terceira etapa. E mais tarde eu escrevi o "Crescendo com eneagrama na espiritualidade". logo em seguida escrevi o "Eneagrama sua dose diária", que é um conjunto de parábolas. O objetivo é as pessoas que já conhecem o eneagrama, cada dia elas podem ler uma parábola e depois se possível fazer uma reflexão e assim ajudar no seu processo de desenvolvimento. Em Novembro eu publiquei mais quatros livros, "Eneagrama da transformação" que uma síntese de toda minha experiência com o eneagrama.


(Bruaca) Padre, esta ferramenta é algo novo para algumas pessoas, porém em várias partes do mundo, já é bem conhecida. Existem muitos autores que falam sobre este tema. De uma certa forma não fica redundante para quem já começa a estudar o assunto?

(Pe. Domingos) O eneagrama tem um corpo que é comum a todas as grandes escolas sobre tudo na década de 1970, com a sua  popularização. E nesse período surgem várias escolas falando e ensinando. O que diferencia é abordagem de cada uma. Eu quando comecei foi um trabalho intuitivo, naturalmente pesquisei tudo que tive ao alcance sobre este tema. E desde do início eu tive uma visão de pegar o que várias escolas diziam e ler tudo, e integrar o que eu sentia que se encaixava e faria sentido na nossa realidade. Claro sempre no horizonte da espiritualidade, sempre no horizonte do respeito pela pessoa e do crescimento integral das mesmas. Nesses vinte e três anos nós fomos incorporando elementos de várias escolas com uma abordagem própria, que seria este horizonte da espiritualidade. Isto para nós é o específico, sempre ver o eneagrama como um mapa psíquico espiritual e que não fica só na abordagem dos tipos e estudo dos tipos, mais que leva a pessoa à chegar a sua essência. Creio que este é nosso diferencial.

(Bruaca) Fale um pouco sobre este projeto que vocês tem aqui, direcionado à os jovens.

(Pe. Domingos) No ano passado surgiu a ideia de fazer um projeto à luz do eneagrama, voltado mais especificamente para os jovens. Algumas coisas que os incomodem e cause questionamentos que estão no contexto de suas realidades. Nós podemos ver um número crescente de suicídios entre jovens e adolescentes. Angústia por falta de sentido da vida, angústia dos adolescentes de 14 e 15 anos que tem que escolher o que vai fazer durante o resto da vida. Então no final de novembro do ano passado, nasceu essa ideia de trabalhar e iluminar esta dimensão de sentido da vida. O projeto hoje conta com a participação de 120 jovens e serve de modelo para outros estados.

(Bruaca) Diante de tanta violência hoje que nos é mostrada diariamente, e que muitas vezes sentimos na pele seus exemplos. Como este processo de autoconhecimento pode de fato se tornar assertivo?

(Pe. Domingos) Olha, eu acredito que as mudanças acontecem de dentro para fora, e de baixo para cima. Não acredito mais em mudanças de cima para baixo ou mudanças pelo poder seja ele qual for. As mudanças acontecem a partir das pessoas. E eu acredito que o autoconhecimento é o grande fator que pode sim proporcionar mudanças profundas significativas e consistente. E quando uma pessoa se transforma, muita coisa acontece em volta dela. E à medida que um numero maior de pessoas tem acesso ao autoconhecimento e faz um processo de transformação, isso vai irradiando e repercutindo na sociedade. Acredito ser um trabalho mais consistente. que dá frutos e ficamos felizes por ouvir os depoimentos das pessoas e as mudanças que elas experimentam na sua vida, mudanças essas que podem ser vistas na família e no ambiente de trabalho.

(Bruaca) Eu fiz as três primeiras etapas deste processo, e me identifiquei com um eneatipo. Entretanto em outra situação fiz um tipo de teste escrito, e lá dizia outro. E fazendo memoria de  minha vida percebi que poderia ter me equivocado nessa identificação. É possível este tipo de equivoco?

(Pe. Domingos) A primeira coisa que você deve saber é que nós temos tudo dos 9 pontos, todos nós temos características deles. A primeira verdade que o eneagrama revela é que somos uma casa redonda com nove quartos e nove janelas. quer dizer que todos nós temos nove formas de estar na vida e nove jeitos de olhar a vida. Agora tem um padrão, tem um tipo onde nós estagnamos na infância por que sentimos que era mais comodo, mais confortável, nos garantia mais aceitação, e acabamos estagnando neste tipo. E ao chegar à vida adulta continuamos repetindo este padrão. É este tipo que nos ajuda a compreender a maior parte das nossas reações e comportamentos.
Segundo, como é que a gente chega a esta identificação? Eu acredito, e isso não é coisa minha faz parte do código de ética da associação de eneagrama. Que cada pessoa é que vai descobrir o seu tipo. E que o processo deve acontecer desse jeito de dentro para fora. Sendo um processo de tomada de consciência, cada pessoa passa por um processo de auto observação. Ninguém identifica ninguém isso é uma distorção e me parece um tanto perigosa.

(Bruaca) Padre, queria agradecer a gentileza de aceitar este bate-papo, e pedir para o senhor deixar uma mensagem para nossos leitores.

(Pe. Domingos) Tem um pensamento que diz, que temos duas tarefas fundamentais na vida, a primeira é descobrir quem nós somos, a segunda é aprender a ser felizes com aquilo que nós descobrimos. A leitura é dos caminhos privilegiados para autoconhecimento e reflexão, Porque a leitura desperta um olhar sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo. Sem dúvida é um grande caminho, sobre tudo, nos tempos de hoje onde as coisas são tão formais e tão rasas, onde o stress suga todo o nosso tempo e a gente acaba ficando sem tempo, Isso acaba nos transformando em robôs. Dentro disso a leitura como caminho, nos desperta dessa normose.




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